Há duas semanas atrás comecei a ler o Memorial do Convento do José Saramago. De início, tive que me habituar ao seu modo de escrever e revirei os olhos umas quantas vezes; depois de entrar na sua “forma” comecei a tentar perceber porque é que o livro não me "agarrava"... Aos poucos percebi que era pelo facto da sua escrita, aos meus olhos e mente, ser muito racional e ter pouca alma. Agora que estou no fim percebi, mais uma vez através dos mesmos olhos, que existem mil e uma emoções presentes neste livro, por detrás de tanta razão, e umas das mais fortes são a revolta e a raiva. Revolta e raiva, por exemplo, por vivermos numa sociedade cheia de vaidades e vontades, baseadas em pilares falsos, que passam pela nossa hierarquia social, herdada de nascença, ou conquistada através de actos ilícitos, mas que dão legitimidade a tudo sem que o povo servil, desejoso de saltar para esse patamar fantástico da impunidade, se revolte num acto tão simples como o de não votar em quem nos rouba.
Pois tanta conversa para falar do que já está na boca do mundo português, a quantidade imensa de candidatos, sem candidez nenhuma, com processos judiciais de corrupção, roubo e falcatruas. Candidatos, alguns deles já comprovados e condenados, que vão sendo sucessivamente legitimados pelos votos de tantos. Esses tantos, se por acaso tivessem roubado um rebuçado numa loja de conveniência, e isso estivesse registado no seu cadastro, não teriam emprego pois seriam acusados de serem elementos perigosos para a nossa sociedade. Claro que não se devem importar muito com esta ofensa pois, como é obvio, caso eles se candidatassem a um cargo político isso seria visto como uma virtude... <
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Oh! Virtude cândida de tanta e tanta gente que, por ambicionar tornar-se um ser humano desprezível, se limita a baixar a cabeça quando a caravana dos palhaços passa.
Deste modo, voto a voto se vai justificando a corrupção activa no nosso pais.
Só me resta dizer... são estas as nossas civilidades.
Sim , este é um tema que a todos deve preocupar. Deveríamos reflectir bastante antes de votar. De que vale estarmo-nos a queixar se na hora H votamos erradamente? Que queremos do país? Que pretendemos legar aos nossos filhos? O que é mais importante: a imagem ou a honestidade e o trabalho?
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